Filho de pescador, jovem da Costa Branca potiguar transforma um problema ambiental em inovação e desenvolve o pesqueiro sustentável
Por Rangel Pontes
A pesca da lagosta é uma atividade estratégica para o Rio Grande do Norte(RN), que movimenta uma extensa cadeia produtiva que vai da captura ao beneficiamento, transporte, comercialização e exportação do produto. Segundo a Secretaria de Pesca do estado, a atividade representa uma importante fonte de geração de emprego, renda e manutenção de comunidades pesqueiras em vários municípios do Rio Grande do Norte.
Apesar disso, a remuneração dos pescadores é considerada incerta e variável. Ela depende da safra, da divisão da captura e do preço de comercialização da lagosta. No RN, a produção estadual passou de 489.300 kg em 2024 para 442.920 kg em 2025, segundo a Secretaria. Em nível nacional, dados do Ministério da Pesca e Aquicultura também apontam queda na produção no mesmo período.
Desde os sete anos de idade, Pedro Melo saía para pescar lagosta com o pai na Praia do Rosado, em Porto do Mangue, na Costa Branca potiguar, a cerca de 220 km de Natal. Essa rotina levou ele a seguir a profissão de pescador, no lugar conhecido pelo encontro do litoral com o sertão. A atividade pesqueira, nessa região, tem forte relação com a identidade local e o modo de vida das famílias que dependem do mar.
Quando começou profissionalmente, Pedro pescava cerca de uma tonelada de lagosta durante os seis meses de safra por ano. Hoje, aos 36 anos, ele captura em torno de 400 quilos de lagosta vermelha e da espécie “cabo verde” em cerca de nove horas que passa na vastidão marítima.
“Tem dia que o pescador traz o pescado e consegue comer; tem dia que não traz e não come. A gente passa boa parte do tempo no sol e trabalha em uma área de risco, porque está no mar. A qualquer momento pode aparecer um grande predador. Então, a gente sai na fé, trabalha na fé e volta na fé. E o mar já não produz como produzia antes.”, refletiu ele.
Entre os fatores que comprometem a sustentabilidade dos estoques de lagosta estão métodos proibidos de captura, como a caçoeira e as marambaias, feitas com materiais inadequados que contaminam o ambiente marinho e afetam a vida marinha.
Conforme o engenheiro de pesca, professor e pesquisador do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), Paulo Victor, é necessário reduzir a captura de lagostas juvenis, melhorar o monitoramento dos desembarques e fortalecer a assistência técnica às comunidades pesqueiras. Além disso, ele chama atenção para a pesca fantasma, quando petrechos perdidos ou abandonados continuam capturando organismos marinhos de forma descontrolada.

Foi nesse cenário que o jovem Gabriel Melo, de 19 anos, também de família pesqueira, passou a observar os impactos da atividade onde vive, no município de Porto do Mangue. Em contato com marisqueiras, percebeu que muitos animais eram capturados em tonéis que já haviam armazenado óleo, gasolina, tinta e outros produtos contaminantes, o que também pode trazer riscos à saúde.
“Isso começou a me incomodar muito.”, contou.
A partir dessa percepção, ele passou a pesquisar mais sobre a pesca da lagosta e identificou que parte dos problemas estava nos próprios métodos de captura utilizados.

O jovem também relembra uma reflexão que teve em uma conversa com o avô, também pescador, sobre a baixa rentabilidade da atividade: “Eu imaginava: como uma atividade em que se investe tanto pode trazer um retorno financeiro tão pequeno?”.
A partir dessas inquietações, e inspirado por conteúdos sobre empreendedorismo na televisão, Gabriel iniciou o desenvolvimento de uma alternativa. Em 2023, ainda no ensino médio, com acompanhamento do professor Dalison Vitor de Souza, deu início ao projeto de um pesqueiro sustentável.
“Eu acredito muito na força da juventude para enfrentar os grandes desafios ambientais do nosso tempo. Muitos jovens estão observando problemas reais dentro das suas próprias comunidades e transformando essas inquietações em pesquisas, projetos e soluções que podem gerar impacto positivo na sociedade e no meio ambiente.”, afirmou.
A iniciativa surgiu também a partir do conhecimento dos estudos da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) sobre a expansão da algaroba na Área de Proteção Ambiental das Dunas do Rosado, na Praia do Rosado. A espécie exótica avançou de 70 hectares, em 2004, para 435 hectares em 2024, provocando impactos negativos na dinâmica das dunas, na disponibilidade de água subterrânea e na vegetação nativa da região.

Diante disso, Gabriel passou a enxergar a algaroba como um possível recurso. “Quando a gente começa a olhar com mais atenção, percebe que a algaroba também pode se tornar um material útil. Utilizar algo que já existe na região ajuda a reduzir custos, facilita a aplicação da solução e fortalece a ideia de sustentabilidade.”, afirmou.
A proposta do pesqueiro sustentável busca reduzir impactos ambientais negativos, substituindo materiais poluentes usados nas armadilhas tradicionais pela madeira da algaroba.


“O Gabriel hoje tem outra visão de mundo, e as conexões que ele construiu ao longo dessa trajetória evidenciam que a educação tem esse poder de transformar vidas, lugares, pessoas e realidades.”, enfatizou o professor do ensino médio, Dalison Vitor de Souza, que participou da iniciativa.
No início, o projeto não teve ampla aceitação e contou principalmente com o apoio da família, que segue participando da produção dos pesqueiros. Hoje, o jovem empreendedor já consegue realizar reuniões com pescadores de diversas comunidades. “Muitos pescadores queriam primeiro ver se realmente funcionava na prática. Por isso, o diálogo aconteceu muito mais através da prática e da confiança construída. Com o tempo, à medida que os testes foram acontecendo e os resultados começaram a aparecer, outros pescadores da comunidade foram se interessando”, relembrou.
Para a formulação do equipamento, o empreendedor manteve diálogo com pescadores, colheu informações, realizou testes e fez ajustes. Foram produzidos e instalados quatro pesqueiros sustentáveis no mar, que não capturam lagostas miúdas.

Na avaliação do pesquisador do IFRN, “é uma solução que precisa ser acompanhada, testada e validada tecnicamente, mas que merece destaque por aproximar inovação, sustentabilidade, conhecimento local e protagonismo das comunidades costeiras.”

Para o pescador Pedro Melo, a experiência com o pesqueiro sustentável traz expectativas positivas. “Em torno de um ano, ele já começa a se decompor. Mas não se decompõe para virar sujeira no mar. Pelo contrário. A rocha e outros organismos da natureza vão se fixando nele, fazendo com que se torne fonte de alimento para os peixes. Além disso, ele acaba funcionando como um coral”, disse.
De acordo com Gabriel, os impactos também são econômicos. O pesqueiro sustentável custa, em média, R$ 40, enquanto o valor das armadilhas tradicionais varia entre R$ 75 e R$ 138. “Quando pensamos em soluções sustentáveis, também estamos pensando em garantir que essa tradição continue existindo no futuro, preservando tanto o meio ambiente quanto a cultura e a economia dessas comunidades.”, enfatizou.
O projeto conquistou o primeiro lugar nacional no Desafio Liga Jovem, concorrendo com mais de 68 mil estudantes e mais de 10 mil projetos em todo o país. Desde então, a iniciativa inovadora soma mais de 38 premiações.
“Essa experiência foi muito marcante porque eu saí de uma realidade muito local e passei a dialogar com um ecossistema muito maior de inovação, empreendedorismo e tecnologia.”, relembrou.
O analista técnico do Sebrae Rio Grande do Norte, Everton Lucena, destaca que o pesqueiro sustentável está em processo de patenteamento e já foi reconhecido com o Prêmio Jovem da Água de Estocolmo. “O apoio do Sebrae ao projeto está voltado ao estímulo à formalização, à comercialização do produto e à ampliação de sua inserção no mercado. Além disso, a iniciativa mantém uma ligação direta com ações de impacto social e educação empreendedora, áreas consideradas estratégicas pela instituição”.

O jovem empreendedor projeta agora a inserção do pesqueiro sustentável no mercado, com foco inicial na Costa Branca potiguar e expansão para todo o Nordeste.
Enquanto isso, o Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte (IDEMA) avança na elaboração do plano de manejo das Dunas do Rosado, que deve organizar o uso do território e a atividade pesqueira.
A coordenadora da Unidade de Gestão da Biodiversidade do órgão, Iracy Wanderley, avalia o cenário de forma integrada: “É extremamente positivo dar espaço às tecnologias sociais e nos aproximar cada vez mais das comunidades para compreender suas potencialidades. Também é fundamental reunir, em uma mesma mesa de debate, a ciência, a iniciativa privada, as organizações da sociedade civil e diferentes gerações, promovendo uma construção coletiva de soluções para os desafios locais.”.

