Devolvendo autoestimas e transformando vidas: como a reforma do Sesc se relaciona com o conjunto Potilândia

Por: Habyner Lima

Eu passava aqui e já dava uma espiada nas obras. A ansiedade era grande para a reabertura. Eu via como estava ficando e já mandava mensagem no grupo do pilates, dizendo: ‘Olha, está ficando bonito mesmo’.”

Durante cerca de três anos e dois meses, esse foi o ritual da professora aposentada Macushla Maike, frequentadora do Sesc Potilândia há quase dez anos. Ela acompanhou de perto cada etapa da reforma da unidade, esperando o momento de voltar ao espaço que se tornou parte da sua rotina.

Macushla Maike em frente a piscina reformada da unidade – Foto: Habyner Lima

Em uma semana de cinco dias úteis, pelo menos metade deles é dedicada às atividades no Sesc. Entre aulas de hidroginástica e pilates, Macushla afirma ter encontrado muito mais do que exercícios físicos.”Eu me sinto super bem. Minha autoestima foi resgatada. Parece que, quando a gente sai daqui, estamos com uns anos a menos“, conta, entre risos. Os resultados também apareceram na saúde. Recentemente, um exame de densitometria óssea revelou uma melhora significativa: “A minha saúde melhorou muito mesmo. Fiz uma densitometria, que mede a densidade dos ossos, e a melhora foi tanta que até a médica me parabenizou. Tive um ganho muito grande e estou bem mais forte.”

Uma relação que atravessa gerações

Para quem mora em Potilândia há mais de 30 anos, o vínculo com o Sesc vai muito além da prática esportiva. Macushla lembra que a relação da família com a instituição começou de maneira simples, durante os momentos de lazer, mas logo passou a fazer parte do cotidiano. “Quando eu vim morar aqui, descobri que a piscina do Sesc era aberta ao público aos domingos, mediante o pagamento de uma taxa. A partir daí, começamos a frequentar o espaço: eu, minha mãe e meu esposo. Com o tempo, fomos conhecendo todas as atividades oferecidas. Minha mãe foi a primeira a participar, ela entrou para a hidroginástica e começou a fazer dança com o pessoal da terceira idade. Depois, toda a família criou um vínculo com o Sesc, que passou a fazer parte da nossa rotina e da vida da comunidade.”

Macushla Maike ao centro com a turma da hidroginástica – Foto: Arquivo pessoal

Essa relação afetiva entre moradores e instituição também é destacada pelo presidente do Sistema Fecomércio RN, Marcelo Fernandes de Queiroz. Segundo ele, a unidade acompanha o desenvolvimento de Potilândia há quase seis décadas e ajudou a formar gerações de estudantes, trabalhadores e famílias.

“Para nós, esta unidade representa a essência da missão do Sesc: transformar vidas por meio da educação, do esporte, da cultura, da saúde e da assistência. Existe também uma relação afetiva muito forte entre a comunidade e a unidade, já que o conjunto habitacional Potilândia foi construído ao redor do Sesc e pelo próprio Sesc, que, naquele momento, também desempenhava uma missão habitacional. Muitas das pessoas que frequentam hoje a unidade fazem parte de famílias que já participavam da escola e das atividades esportivas e culturais há gerações. É um espaço que guarda memórias e, ao mesmo tempo, projeta o futuro.”

Nova fachada da unidade Potilândia após a reforma, com grafites que representam a educação na infância – Foto: Tainah Lucena

Quem faz o Sesc Potilândia 

O Sesc inaugurou o Centro de Atividades de Potilândia em 1966. Na época, a unidade desenvolvia ações de trabalho comunitário, com cursos de culinária, corte e costura, economia doméstica, além de campanhas voltadas para a saúde. Desde então, o espaço passou por diversas transformações, tanto nas atividades oferecidas quanto em sua estrutura física. 

Entre os atuais 132 colaboradores do Sesc Potilândia, uma história se destaca pelo tempo de dedicação à instituição. Maria de Fátima, secretária da unidade, completou, em 1º de setembro de 2026, 37 anos de atuação no Sesc. Ao longo dessas quase quatro décadas, ela acompanhou de perto as transformações e o crescimento da unidade, trajetória que considera um privilégio. Sua história se entrelaça com a do próprio Sesc Potilândia, do qual presenciou importantes momentos de desenvolvimento e evolução do espaço.

Maria de Fátima em 1995 quando tinha 6 anos de SESC – Foto: Arquivo pessoal

Um deles foi a recente reforma da estrutura da unidade, que acabou gerando inúmeros desafios, mas, segundo Fátima, todo o esforço valeu a pena: “Houve uma expectativa diante do novo e um certo desconforto pela necessidade de mudar o ambiente de trabalho. Durante esse período, passamos a atuar em um prédio alugado para que as atividades continuassem acontecendo. Embora o espaço fosse menor, todos se uniram para garantir o atendimento de qualidade à comunidade e não fosse interrompido”.

Enquanto o retorno à unidade não acontecia, o sentimento era de ansiedade. Segundo Fátima, não havia um dia sequer em que ela não imaginasse como ficaria o resultado final das obras. “A expectativa pelo retorno à unidade Potilândia era enorme, principalmente ao acompanhar a grandiosidade da reforma e a transformação da sua estrutura. Era impossível não sentir ansiedade para voltar e ver tudo pronto. Quando finalmente retornamos, percebemos que toda a espera valeu a pena. Ver a nova estrutura, muito mais ampla, moderna e preparada para acolher ainda mais pessoas, trouxe um sentimento de realização.”

Com 37 anos de dedicação ao Sesc, Fátima destaca aquilo que mais a orgulha em toda essa trajetória: “O que mais enche meu coração de alegria é saber que a educação tem o poder de transformar vidas. O Sesc Potilândia já transformou a vida de milhares de ex-alunos que passaram por aqui e tenho a certeza de que continuará transformando a vida de muitas outras pessoas.

Maria de Fátima em maio de 2026, no evento de comemoração de 80 anos do Sesc – Foto: Arquivo pessoal

Investimento que fortalece a economia e amplia os serviços

A história do Sesc na localidade ganhou mais um capítulo dentre tantos construídos. Com a ampla reforma da unidade, ao todo foram investidos R$ 32,9 milhões na modernização do prédio, que teve sua área ampliada em cerca de 60%, passando de 2,7 mil para mais de 4,3 mil metros quadrados. A expectativa é que, somente em 2026, mais de 111 mil pessoas sejam beneficiadas pelas atividades desenvolvidas na unidade, nas áreas de educação, saúde, cultura, esporte e lazer.

Após as obras a unidade passou de 2,7 mil para mais de 4,3 mil metros quadrados, um aumento de quase 60% – Foto Assessoria Sesc

A ampliação da escola também permitirá o aumento da capacidade de atendimento, passando de 615 para mil alunos. A estrutura ganhou novas salas de aula, biblioteca, auditório, academia, espaços multiuso, piscina, quadra coberta, espaço de musicalização e áreas de apoio aos professores.  

Além de ampliar os serviços oferecidos à população, a obra também movimentou a economia local. Cerca de 100 trabalhadores participaram diretamente da reforma. O gerente de Obras do Sistema Fecomércio RN e responsável técnico pela intervenção, Ícaro Barroso, explica que os trabalhos foram divididos em três etapas.

Cerca de 100 trabalhadores atuaram na reforma da unidade – Foto: Assessoria Sesc

“A primeira foi a reforma da escola, abrangendo os blocos da Educação Infantil, do Ensino Fundamental, o refeitório e a cozinha, além do complexo de lazer, que contempla academia, espaço multiuso e solário. Na segunda etapa, cuidamos da estrutura do Ensino Fundamental II. Por último, realizamos a reforma geral da quadra poliesportiva. Na prática, a modernização da unidade permitiu ampliar a oferta de serviços à população, é o que aponta Ìcaro: “Com a nova estrutura, o Sesc passou a contar com novas turmas do Ensino Fundamental II, além de fortalecer as atividades de lazer e promoção da saúde, com a implantação de uma academia, espaços multiuso e ambientes mais modernos para a realização das diversas atividades oferecidas pela instituição”. 

Após a reforma da unidade uma das principais novidades anunciadas é a implantação do ensino médio a partir de 2027, tornando Potilândia a primeira unidade do Sesc RN a ofertar a modalidade. Inicialmente, serão abertas 80 vagas distribuídas em duas turmas da 1ª série, com foco na preparação para o Enem.  

O conjunto habitacional nasce junto com o Sesc

A história entre Potilândia e o Sesc começou antes mesmo da consolidação do conjunto. Em junho de 1967, uma iniciativa idealizada pelo Dr. Reginaldo Teófilo, presidente do Sesc no período, entregou as primeiras 48 casas destinadas aos comerciários da cidade. Somadas às residências particulares construídas posteriormente, o conjunto passou a reunir aproximadamente duas mil moradias.

O historiador Alexandre Rocha (Xuxu) explica que Potilândia foi o primeiro conjunto habitacional da Zona Sul de Natal e teve papel decisivo na expansão urbana da capital.

Recorte de jornal do plano habitacional casRecorte de jornal sobre o plano habitacional Casa para o Comerciário, em Potilândia, registrado em 1967. Ao fundo, uma das casas construídas por meio da iniciativa do programa. Foto: Arquivo Sesc.

“A grande ironia urbana da Potilândia é que ela é a verdadeira ‘mãe’ da Zona Sul potiguar, mas acabou sendo ‘engolida’ pelo próprio filho. Quando iniciativas como as do Sesc desbravaram aquele cenário de faroeste nos anos 1960, sem uma única gota de água encanada, estavam, na verdade, acendendo o estopim do que viria a ser Lagoa Nova. O poder público demorou a conceder o título oficial de bairro, que só veio em 1967. Potilândia não demorou muito para redefinir as linhas do mapa e apagar essa independência. Só que a história não se apaga por decreto: quem pisa hoje naquelas 62 ruas batizadas com nomes de pedras preciosas e minerais está caminhando sobre o marco zero do desenvolvimento da Zona Sul de Natal”, destacou o historiador. 

Ainda de acordo com os registros históricos a missão do Sesc foi justamente focada em transformar e melhor a vida, sobretudo dos comerciários do Rio Grande do Norte, eis que surgiu a ideia, gestada e executada pelo por Jessé Pinto Freire, de transformar uma antiga granja, pertencente ao América Futebol Clube, no espaço que abrigaria os lares de centenas de comerciários, que tiveram a realização do emblemático sonho da casa própria financiada com recursos do próprio Sesc.

Registro histórico da unidade de Potilândia década de 60 – Foto: Arquivo Sesc

Para quem viu toda essa transformação de perto, o impacto do Sesc pode ser percebido diariamente. O presidente do Conselho Comunitário dos Moradores de Potilândia (CCMP), Damásio Pessoa, comenta que a instituição é parte fundamental da história do conjunto.

“O Sesc ajudou muito, seja na área de lazer, na educação de crianças e jovens ou por meio das atividades esportivas. Nós, que somos moradores, estamos muito satisfeitos com toda essa atuação, porque ela impacta diretamente o cotidiano da comunidade e melhora a qualidade de vida de quem vive aqui.”

Um patrimônio da comunidade em constante evolução

Esse vínculo entre a instituição e a comunidade agora será ampliado para além dos muros da unidade. Como parte das ações de integração com o bairro, o Sesc RN assumirá a conservação de mais de mil e quinhentos metros quadrados da Praça Miriam Vasconcelos, localizada em frente à unidade. O espaço tem como nome em homenagem a moradora histórica do conjunto. O espaço passará por um processo de revitalização, com a implantação de área pet, ambientes destinados à prática de atividades físicas, além de novos espaços de lazer e convivência para os moradores. O investimento previsto é de cerca de R$350 mil.

foto praça

Segundo o presidente do Sistema Fecomércio RN, Marcelo Queiroz, a praça sempre fez parte da rotina de quem vive em Potilândia: “A praça é uma extensão natural da unidade. Quem conhece Potilândia sabe que aquele espaço sempre foi um ponto de encontro da comunidade, de convivência entre famílias, crianças e moradores do bairro. Por isso, decidimos adotar a Praça Miriam Vasconcelos e investir em sua revitalização, criando novos espaços para lazer, prática de atividades físicas, convivência e até uma área destinada aos pets. Queremos que ela seja um ambiente vivo, acolhedor e integrado ao dia a dia da população. Acreditamos que o papel do Sesc vai além dos muros de suas unidades. Quando qualificamos um espaço público, estamos fortalecendo o sentimento de pertencimento da comunidade e ampliando as oportunidades de convivência e qualidade de vida.”

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