A aparição de um tubarão-lixa em águas rasas da Praia de Ponta Negra, nesta sexta-feira (4), não é um episódio isolado, mas um alerta direto sobre os efeitos da engorda da praia. A obra não trouxe o animal para perto da orla; trouxe as pessoas para dentro de um território onde ele sempre esteve. O risco apenas mudou de lugar, enquanto o poder público finge não perceber.
Ao alargar artificialmente a faixa de areia, a engorda redefiniu a linha entre lazer e perigo, empurrando banhistas para áreas antes profundas, sem sinalização adequada, monitoramento ambiental contínuo ou debate transparente com a sociedade. Vendeu-se a ideia de segurança e de solução definitiva; entregou-se exposição ao risco, aumento do perigo de afogamentos e improviso, inclusive com um sistema de drenagem que segue inacabado.
O episódio escancara o problema central da obra: uma intervenção pesada na natureza, sem planejamento ambiental à altura. A praia ficou maior, mas os impactos reais ficaram fora da propaganda oficial. A natureza não se adapta ao discurso. Ela cobra.
O tubarão deixou o recado. Quando a política empurra a areia, quem paga o risco é o cidadão.

