Cecília Olliveira e os dados que desmontam narrativas oficiais

Por Dhimitri Campos, Henrique Neiva e Marianne Plessem

Foto: Co.Lab PUC Minas / Divulgação

Muito antes de se tornar uma das vozes mais contundentes do jornalismo brasileiro, Cecília Oliveira era apenas uma adolescente trabalhando em uma fábrica, com os ouvidos colados ao rádio. O som que preenchia o ambiente trazia “a rua para dentro do estúdio”, e foi ali, entre o trabalho na fábrica e a voz de radialistas, que ela compreendeu pela primeira vez o peso da informação. Esse percurso pessoal ajuda a explicar sua abordagem jornalística, sempre comprometida com a realidade concreta das pessoas.

A jovem que entrou na faculdade aos 21 anos, sem contatos e em um ambiente hostil à sua presença, descobriu que seu lugar não era apenas observar, mas escavar. Hoje, fundadora do Instituto Fogo Cruzado e co-fundadora do The Intercept Brasil, Cecília opera no que define como “jornalismo contra-hegemônico”. Seu trabalho não é apenas relatar a realidade, mas disputá-la.

Foto: Sashopotiguar, CC BY-SA 4.0 via Wikimedia Commons.

O vazio que criou uma chama de dados

A gênese do trabalho de Cecília reside numa lacuna. Em 2016, às vésperas das Olimpíadas no Rio de Janeiro, ela buscou dados estruturados sobre tiroteios para uma reportagem, mas encontrou um vazio estatístico. O Estado não contava os tiros; logo, oficialmente, aquela violência não existia da forma como a população a vivenciava diariamente.

“Comecei a contar sozinha”, relembra a jornalista. O que começou como uma contagem solitária em planilhas de Excel evoluiu para uma colaboração com pessoas próximas e assim germinou uma semente do jornalismo contra-hegemônico: recusando a narrativa estatal e apurando em contagem coletiva a narrativa que o poder insiste em invisibilizar. Conforme o grupo foi se popularizando, sob o guarda-chuva de uma campanha da Anistia Internacional, transformou-se no Instituto Fogo Cruzado.

A plataforma subverteu a lógica tradicional da segurança pública ao permitir que moradores reportem tiroteios em tempo real por meio de um aplicativo. “Quando um dado entra em uma base pública, o morador passa a fazer parte da construção da informação”, explica Cecília. Para ela, os dados são uma forma de linguagem que permite se disputar narrativas com fatos concretos, especialmente em temas como o de segurança pública, em que o discurso oficial — do Estado — costuma predominar.

Cecília e sua equipe retiraram o monopólio da narrativa das mãos do Estado e entregou aos cidadãos, os colocando como centro da produção do conhecimento sobre a violência armada.

Imagem: Captura de tela da página inicial do Instituto Fogo Cruzado/Reprodução.

Uma garagem em Botafogo

No mesmo ano em que os dados começaram a mapear a violência, nascia em uma garagem no bairro de Botafogo a versão brasileira do The Intercept. A proposta era radical: uma redação pequena, com liberdade editorial total, focada em expor o funcionamento interno do poder e sem as amarras da publicidade comercial. A ideia era romper com o jornalismo hegemônico e investigar estruturas de poder, expor abusos de autoridade, cruzar dados de violência estatal e confrontar versões oficiais.

O trabalho de Cecília se desdobra, portanto, em duas frentes complementares que formam um ecossistema de mapeamento colaborativo e cívico. Enquanto o Fogo Cruzado oferece o “quanto” e o “onde”, o The Intercept Brasil mergulha no “porquê” e no “quem”.

Imagens: Logos do The Intercept Brasil e do Instituto Fogo Cruzado

“Juntas, essas iniciativas produzem um panorama mais completo, desmontando discursos oficiais e colocando luz onde o poder prefere manter a escuridão”, analisa a jornalista. É a articulação fina entre a investigação jornalística radical e a ciência de dados que permite a disputa da narrativa pública num terreno onde, por décadas, só havia a palavra oficial. Nessas duas frentes, Cecília mostra que o jornalismo não pode se limitar a contabilizar cadáveres, mas precisa investigar as estruturas que os produzem. Em um cenário em que a imprensa tradicional frequentemente se rende ao factual imediato, ela recusa esse enquadramento raso, que reforça a notoriedade do discurso oficial, e disputa o próprio sentido do que se entende por “segurança pública”, revelando o que o poder tenta ocultar.

A espetacularização da guerra

A especialização de Cecília em Criminalidade e Segurança Pública não veio apenas da prática, mas da necessidade de entender as engrenagens que produzem e sustentam a violência no país. Para ela, cobrir segurança exige compreender o sistema judiciário e a política, não apenas a cápsula deflagrada no chão. É nessa lente analítica, em atuação com uma apuração rigorosa e uso sistemático de dados que se permite disputar os discursos oficiais, que corriqueiramente, a imprensa reproduz sem questionar.

Essa visão analítica da jornalista é precisa quando se observa o cenário atual do Rio de Janeiro. Cecília classifica as recentes operações policiais — incluindo ações que deixaram mais de 120 mortos e paralisaram a cidade — como “teatro político”.

Imagem de drone dos criminosos mortos na Operação Contenção.
Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Os dados do Fogo Cruzado são implacáveis contra a retórica oficial: em uma megaoperação motivada por 100 mandados de prisão, apenas 17 foram cumpridos. Metade dos mortos não tinham mandado em aberto. A estrutura das facções permaneceu intacta, seus líderes se deslocaram para outras áreas, sem prejuízo estratégico. Enquanto a população é super exposta à violência brutal, o que restou foi o saldo de corpos e o terror imposto a trabalhadores e crianças, além de serviços essenciais paralisados e exposição de moradores a riscos extremos, por falta de inteligência policial e estatal.

“Essas operações são ações de alta letalidade, repetidas sempre em contextos de interesse eleitoral, que produzem grande impacto simbólico, mas nenhum efeito real sobre o crime organizado”, critica Cecília.

Segundo Cecília, durante sua trajetória identificou um padrão de violência policial que se repete há décadas, que é agravado pela falta de políticas públicas consistentes. Para ela, a Megaoperação do Rio de Janeiro iniciada em 28 de outubro de 2025, que deixou 122 mortos, incluindo 5 policiais, é a maior chacina policial registrada no estado desde que o Fogo Cruzado começou a mapear esses eventos, em 2016. “[…] sozinha ela supera todas as chacinas anteriores mapeadas pelo Fogo Cruzado no Complexo do Alemão e da Penha” , diz a especialista em Criminalidade e Segurança Pública Cecília Olliveira.

Contexto importa

Em um país onde os políticos usam de sua autoridade para incitar o terror, e a mídia televisiva frequentemente exibe corpos negros e periféricos em situação de violência, contribuindo para a naturalização da bárbarie, a jornalista defende o rigor da apuração e a humanização das matérias. É uma batalha semiótica.

Para ela, a imprensa tradicional muitas vezes atua como amplificadora da versão oficial, tratando massacres como atos heróicos ou inevitáveis. O antídoto para isso é o contexto: mostrar a ausência de inteligência policial, o colapso do sistema penitenciário brasileiro e as conexões políticas do crime.

O público-alvo dessa disputa narrativa não é apenas o convertido. O trabalho do Fogo Cruzado mira, estrategicamente, no que a Cecília chama de “conservadores não radicalizados”, pessoas que acreditam na política do endurecimento penal, mas que, diante dos dados que provam a ineficácia dessa estratégia há 30 anos, estão abertas ao diálogo.

O futuro colaborativo do jornalismo

Manter a independência financeira custa caro, e a segurança das equipes é uma preocupação constante em um país hostil a defensores de direitos humanos. Contudo, a inovação tecnológica, como o processamento de grandes volumes de dados (big data), permite hoje investigações que seriam impossíveis anos atrás.

Ao final, o trabalho da jornalista Cecília Oliveira, do Instituto Fogo Cruzado e do The Intercept Brasil é sobre devolver à sociedade os dados que lhe foram negados. Tratando com complexidade os temas abordados de forma simplista e hegemônica. E, acima de tudo, devolver a humanidade às estatísticas de segurança pública no Brasil.

“Não estamos atrás de audiência a qualquer custo. Estamos atrás da verdade.” – Cecília Oliveira

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